Lições holandesas

Por Eduardo Andrade de Carvalho em 11 de dezembro de 2013

Estado de SP – Num grupo de aproximadamente cinco incorporadores, passamos, em outubro, uma semana na Holanda a convite do Netherlands Archtechtect Institute (NAI), para conhecer projetos arquitetônicos locais. A estada foi em Roterdã, que, quase inteiramente destruída na Segunda Guerra, é hoje considerada “capital mundial da arquitetura contemporânea”: tem prédios vizinhos criados por arquitetos como Norman Foster, Álvaro Siza, OMA e Renzo Piano.

Ícones à parte na Holanda fica claro que não é apenas se contratando uma série de arquitetos famosos que se melhora o ambiente urbano. É a alta qualidade da média da arquitetura holandesa que impressiona. Só o debate a respeito da arquitetura e urbanismo mais aberto e mais frequente é que a qualidade estética e, digamos, social dos nossos projetos vai melhorar.

Arquitetura e urbanismo são assuntos importantes demais para serem discutidos tão pouco. Um dos objetivos do NAI, por exemplo, é estimular pessoas de todas as idades sem ligação formal com a arquitetura a se aproximar do tema. Na entrada da sua sede, crianças brincam de construir prédios com uma espécie de Lego gigante, enquanto seus pais visitam atrações como a exposição de tesouros da arquitetura holandesa selecionados por Rem Koolhaas.

E a arquitetura holandesa não seria tão interessante se não fosse tão aberta a influências internacionais. Ao mesmo tempo, no prédio do NAI havia, em outubro, duas exposições: uma dedicada a Louis Kahn e outra a Lelé.

Uma lição importante dos holandeses é o impacto positivo que um projeto inteligente pode ter numa área decadente.Em Leiden Norte, numa região com vários problemas sociais, Ton Venhoeven projetou um edifício que inclui escola infantil, hospital, asilo para idosos, uma quadra poliesportiva e apartamentos residenciais.

Integração. Pequenos detalhes na fachada separam visualmente o uso de cada bloco por fora, mas por dentro o prédio é completamente integrado: e idosos podem passar a tarde jogando xadrez numa varanda do prédio enquanto crianças jogam futebol, na quadra poliesportiva. Venhoeven, aliás, conhece e adora o Sesc Pompéia.

A recém-inaugurada extensão do Stedelijk Museum, em Amsterdã, desenhada pelo escritório Benthem Crouwel é um exemplo de outra lição holandesa: a de que a forma quase escultural de edifício pode ser acompanhada por um excelente programa interno e pelo respeito ao entorno.

Anexo a um prédio de tijolos do século 19, o escritório projetou um volume totalmente branco, com borda arredondada, que contrasta com a construção antiga, porque – como o MASP – a nova extensão quase não se encontra com o chão, deixando a fachada do prédio antigo visível.

A obra é dividida em duas partes: a superior, que criou uma cobertura em frente à praça dos museus de Amsterdã e uma área subterrânea, que não aparece da calçada.

É impressionante como os detalhes são bem feitos. Este é um aspecto, aliás, em que Eric Von Egeraat, um arquiteto holandês neo-barroco, insiste muito: na importância da qualidade de toda obra. Edifícios exigem tanta energia para serem construídos que, segundo Egeraat, se quisermos construir dentro de princípios sustentáveis, eles têm de durar muito.

Um estudo que ele enviou para o governo holandês defende que as pirâmides do Egito são as construções mais sustentáveis da história. Apesar de discutível, é um argumento inteligente que não parece ter chegado no Brasil – onde se tem falando tanto de “sustentabilidade”, mas a qualidade da obra continua precária.

Possível. A arquitetura contemporânea holandesa pode até ser a mais avançada do mundo, mas não é por isso que devemos nos intimidar e evitar suas lições. Porque várias delas são simples. E, principalmente, porque várias delas nós já um dia praticamos aqui. Talvez a principal lição holandesa seja, na verdade, a de que devemos relembrar o que um dia soubemos fazer.

Texto de Eduardo Andrade de Carvalho, sócio da Moby Incorporadora, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 21/02/2013.

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