Lições cariocas

Por Eduardo Andrade de Carvalho em 15 de julho de 2014
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Estado de SP – As comparações entre São Paulo e Rio de Janeiro que fazemos normalmente se limitam às diferenças geográficas entre as duas cidades. E esquecemos que, além de uma maravilha natural, os melhores bairros do Rio de Janeiro são também resultado de uma organização urbana que, se não podemos copiar em São Paulo, podem pelo menos inspirar as nossas iniciativas para melhorá-la.

A zona sul do Rio – a principal, a região que nos vem à cabeça quando nos lembramos do Rio – é em grande parte pensada para o pedestre. Existem exceções, claro: túneis e viadutos que são intransponíveis a pé e avenidas desproporcionais à escala de quem caminha. Mas a primeira impressão do paulistano que se hospeda num bairro como Copacabana, por exemplo, é que o carro não é apenas desnecessário: ele é antes de tudo um incômodo.

Porque Copacabana tem uma densidade populacional suficiente para justificar o pequeno comércio local, aberto à rua – o que dispensa a viagem com carro a shopping centers no subúrbio. A população mora em edifícios geralmente com lojas no térreo, sem muros, alinhados à calçada – como acontece nas cidades mais agradáveis do mundo, como Paris e Nova York.

Essa relação amigável do edifício com a rua, como recomendada por Jane Jacobs no clássico “Morte e Vida de Grandes Cidades”, deixa o ambiente mais vivo, mais transparente – e, consequentemente, mais seguro, ao contrário do que acontece em bairros paulistanos como Morumbi. Lá, muros infinitos deixam a cidade deserta, criam becos e, assim, espaços ideais para assaltos.

Se Copacabana pode ser, para algumas pessoas, movimentada demais, cheia demais, o Rio de Janeiro prova que esse mesmo princípio urbano – da cidade voltada ao pedestre – pode funcionar de várias maneiras e em várias escalas.

O Jardim Botânico, por exemplo: atravessado por uma avenida que concentra os maiores comércios (como bancos, supermercados) e prédios comerciais, o bairro tem uma vida urbana maravilhosa. Misturando casas com predinhos, quitandas com centros culturais, pracinhas com restaurantes, o Jardim Botânico combina acesso fácil às conveniências do dia a dia com um ambiente calmo, sem nunca ser vazio – e, por isso, talvez seja hoje o bairro mais charmoso do Rio.

As melhores qualidades do Jardim Botânico – assim como as características mais importantes de uma cidade ideal – estão resumidas , por exemplo, no microambiente em torno da Praça Pio XI, ou, como se diz lá, Pióxi: o espírito comunitário, o pequeno comércio misturado à área residencial, o acesso à infraestrutura urbana. A pracinha é frequentada por todos os tipos de moradores e usada em todos os períodos do dia: de crianças que passeiam com os pais de manhã a casais que vão namorar à noite, incluindo jovens que usam os equipamentos de ginástica e amigos que aproveitam os tabuleiros de xadrez desenhados nas suas mesas.

Essa comunidade de pessoas diferentes compartilhando o mesmo espaço (cuidando dos seus equipamentos, da sua iluminação, dos canteiros das suas árvores), cria um ambiente que é ao mesmo tempo muito divertido e muito civilizado. Um espaço público bem cuidado é um sinal de civilidade e um estímulo para que a civilidade floresça. São Paulo, enquanto isso, está se enclausurando em condomínios fechados e contratando empresas para tentar administrá-los. Com medo da violência, nos trancamos entre muros, o que só faz agravá-la. Em busca de eficiência, terceirizamos a nossa relação com vizinhos: o que nos distancia de quem está perto e faz a vida mais fria, mais sem graça.

E é isso que temos que evitar: que a vida na cidade de São Paulo se limite ao transporte de carro entre ambientes totalmente fechados, como condomínios-clubes e shopping centers. Em grande parte, aliás, a situação já é essa – e essa opção é, além de inviável, entediante.

Uma cidade voltada ao pedestre, como o Rio de Janeiro é nos seus ambientes mais agradáveis, é mais confortável, mais segura, menos poluída. E talvez não exista prova mais clara de que seja também mais civilizada e mais divertida do que o fato de um dos blocos mais simpáticos do carnaval carioca, o Ultimo Gole, acontecer na Quarta Feira de Cinzas na Pióxi, organizado pela comunidade local.

Texto de Eduardo Andrade de Carvalho, sócio da Moby Incorporadora, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 08/06/2014.

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