Lições americanas

Por Eduardo Andrade de Carvalho em 11 de dezembro de 2013
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Estado de SP – Passei duas semanas, em maio, em Chicago e Nova York, numa espécie de tour urbanístico-arquitetônico, visitando casas e edifícios, praças e bairros, anotando ideias que possam ser implantadas em São Paulo. Importamos dos Estados Unidos, nos últimos vinte ou trinta anos, a ideia de edge city, de bairro afastado do centro, com densidade baixa, exclusivamente residencial e dependente do carro como meio de transporte – e adaptamos esse conceito trancando-o entre muros e batizando de “bairro planejado”. Talvez esta tenha sido a principal influência em planejamento urbano que recebemos dos Estados Unidos nas últimas décadas. Não deveria.

Porque uma cidade civilizada é feita de gente andando nas calçadas – e jamais se desenvolve entre muros.  Não é a periferia de Detroit que devemos imitar. É Nova York.  As cidades mais agradáveis do mundo – Paris, Roma, etc. – estão cheias de gente andando em suas calçadas. E, para que isso aconteça, precisamos de – além, claro, calçadas confortáveis – um motivo para andar: ir ao escritório, à farmácia, ao restaurante. E essa infraestrutura comercial de um bairro só se justifica economicamente se houver certo adensamento de pessoas morando na região. Não é à toa que o Marais, o Village e, se quiser, Higienópolis, são ao mesmo tempo bairros com calçadas movimentadas e muito procurados para morar.

E esta é a primeira lição americana, especificamente de Manhattan: a importância de desenvolvermos bairros com um nível de adensamento populacional suficiente para estimular o comércio local. No quarteirão em que me hospedei no East Village, por exemplo, havia uma academia de pilates, uma casa de chá, um antiquário de objetos africanos, uma padaria, um brechó, duas lojas de sanduíches orgânicos, uma mesquita, uma sinagoga, uma lavanderia, uma sauna russa, etc. Essa variedade só é possível porque há clientes suficientes no entorno e porque é permitido que um comércio se instale no piso de um prédio residencial – o que é desestimulado pela nossa legislação.

Legislação que, aliás, está sendo revista exatamente agora: o Plano Diretor de São Paulo, aprovado em 2002, está passando por reanálise na atual gestão da cidade. A pauta inclui questões urbanas fundamentais para a cidade funcionar melhor: vetores de crescimento a serem estimulados, como ocupar o Centro, a Lei de Zoneamento, etc. Independentemente da abertura ao debate que a Prefeitura ofereça (mais informações no site gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br), a sociedade precisa se informar sobre o que está acontecendo, e a conversa sobre o Plano Diretor precisa ser mais frequente – das mesas de bares às faculdades.

E neste aspecto – na importância que o debate público tem nos Estados Unidos – também existe outra lição. Jane Jacobs, por exemplo, autora de Morte e Vida das grandes cidades, um dos mais influentes livros sobre urbanismo, escreveu de forma acessível, sem jargões, de uma forma compreensível a qualquer pessoa interessada em como viver civilizadamente numa cidade. A mesma coisa fez William H. White, autor do livro The Social Life of Small Urban Spaces e que dirigiu o divertido documentário de mesmo título, em que mostra como e por que certos lugares públicos da cidade funcionam e outros não. White, aliás, era editor da revista Fortune, uma publicação a princípio não diretamente ligada ao assunto. Mas o ponto é este: a organização da vida urbana é um tema importante demais para ser debatido exclusivamente em ambientes fechados, burocráticos. Jacobs e White – ao escreverem sobre a cidade – deram voz à parte de sua população, e abriram a discussão aos seus moradores comuns.

Essa tradição de discussão pública estimula a criação de iniciativas como a Friends of the High Line, em Nova York, que, em parceria com a Prefeitura, transformou uma linha de trem abandonada no West Side num agradável parque suspenso. E foi outra iniciativa da também civil que comprou em leilão, com capital privado, uma das obras de arquitetura mais importantes do século XX: a Farnsworth House, de Mies van der Rohe, nos arredores de Chicago. Hoje, a casa é mantida em estado impecável de preservação – apesar das enchentes que sofreu – e é aberta à visitação guiada, que acontece várias vezes ao dia. Enquanto isso, por falta de verba e/ou gestão, projetos fundamentais à compreensão da história da arquitetura brasileira estão fechados ou em mau estado de conservação.

É por isso que são tão importantes organizações como a Chicago Architecture Foundation, que realiza exposições sobre a história da cidade e visitas orientadas por edifícios e bairros importantes. Uma das principais características de uma sociedade civilizada é a compreensão do seu passado. Sem entender o que a cidade foi um dia (como eram os seus prédios antes do Grande Incêndio, quando o rio era poluído, antes da invenção do elevador, etc.) é praticamente impossível entender o que ela é hoje. E São Paulo precisa também resgatar esse senso histórico para que o dia-a-dia na cidade seja mais civilizado no futuro.

Texto de Eduardo Andrade de Carvalho, sócio da Moby Incorporadora, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 11/06/2013.

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