Construtoras ‘rebeldes’ condenam muros altos e pedem mais integração

Por Eduardo Andrade de Carvalho em 10 de dezembro de 2013

Folha de São Paulo – Ainda que as soluções para encontrar uma “nova arquitetura” variem, o discurso das novas incorporadoras prevê uma cidade mais aberta e integrada. Segundo as empresas, isso implica criar uma alternativa a condomínios com muros altos.

A escolha dessa estrutura como inimigo-chave tem uma dupla razão. A primeira é que o muro representa uma divisão explícita entre o mundo de dentro e o de fora -ainda que um gradil desempenhe a mesma função, só que de forma mais discreta. A segunda é que esconde a fachada do edifício, impedindo que se aprecie seu desenho.

Para o arquiteto e curador da décima Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, Guilherme Wisnik, falar em “prédios beges” é uma generalização. “Se você pensa em Nova York, por exemplo, faz sentido definir os prédios pela cor marrom, pois são feitos de tijolos. Em São Paulo, não há tanta uniformização.”

Quanto à presença constante do vidro, ele não condena o uso do material, mas ressalta que os espelhados e fumês “são feios e não oferecem transparência”.

Para o vice-presidente do SindusCon-SP, Odair Senra, as construtoras precisam fazer prédios bonitos, mas adequados à demanda. “Não é verdade que falta às incorporadoras a vontade de fazer produtos bonitos. O que manda é a viabilidade econômica.”

Restritos a bairros nobres da capital paulista, como Vila Madalena e Itaim Bibi, apartamentos dessas incorporadoras custam de R$ 10 mil a R$ 15 mil, por valor de metro quadrado.

MAIS GRAMA

A opção pela influência modernista como sinônimo de qualidade arquitetônica não é unanimidade.

Rafael Birmann, da incorporadora Faria Lima Prime Properties, com atuação em empreendimentos corporativos, ressalta que a abertura à cidade pode ser feita por outros meios. “O modernismo olhou muito para a obra ‘escultórica’, entendida como o grande monumento, distante e inatingível, como Brasília. Hoje, a vida pede menos concreto e mais grama.”

Para Maria Teresa Diniz, coordenadora-executiva do grupo de pesquisa USP Cidades, é preciso repensar a legislação em alguns pontos.

Segundo ela, exigir para a cidade toda um recuo frontal de cinco metros do edifício até a calçada acaba funcionando como um incentivo à construção de muros e grades.”Além disso, não é a melhor coisa do mundo morar em um apartamento no térreo, em um prédio sem muros”, diz.

Para a urbanista e professora do Mackenzie, Eunice Abascal, é preciso lembrar que esses projetos são casos isolados. “O importante é a conscientização do ambiente urbano, e não meros discursos de relação com a cidade por meio do aumento da calçada”.

Idea!Zarvos

Fundada em 2004 e premiada em diversos concursos internacionais de arquitetura, a Idea!Zarvos tem como um de seus pilares janelas e caixilhos maiores, o que leva mais luz aos ambientes.

“Os prédios tradicionais usam a massa única ou a textura no acabamento. Preferimos materiais elaborados, mas que exigem menor manutenção”, diz Fernando Moliterno, gerente da empresa.

Autorais e diferentes entre si, seus prédios tornaram-se referências nas ruas da zona oeste, onde a empresa atua. “O consumidor deve ser crítico ao comprar um imóvel”, diz Otavio Zarvos, fundador da construtora.

Vitacon

A proposta “antiprédio bege” da Vitacon sugere edifícios voltados a um público jovem. Para o projeto do VN Casa do Ator, por exemplo, foi chamada a arquiteta Mila Strauss, responsável pelo design de casas noturnas. Nele, há venezianas móveis para controlar o nível de insolação no ambiente.

Nos apartamentos ultrapequenos da incorporadora -o menor deles, no edifício Turiassu, tem 21 m²-, a estrutura é semelhante à dos flats.

Segundo Alexandre Lafer, a busca é por projetos exclusivos, com design contemporâneo e uso de muito vidro.

No VN Casa do Ator, o destaque é a falta de muro frontal e o jardim na frente do prédio.

Moby

O incorporador Eduardo Andrade, da Moby, organiza um encontro no próximo dia 8. A ideia é discutir, com um grupo de convidados, casas consideradas marcos arquitetônicos da cidade.

“O que se faz em São Paulo é pegar arquitetura neoclássica e mudar a fachada. Isso não é arquitetura boa”, diz Andrade.

O primeiro empreendimento da Moby, criada em 2011, é o Amoreira, lançado em março deste ano, no Jardim Prudência (zona sul).

Amplas janelas, brises, sacada no corpo do prédio, um jardim na calçada e um painel artístico no hall de entrada são alguns itens do projeto. A separação para a rua será feita por um gradil.

Huma

O Huma Klabin, primeiro projeto da construtora, tem duas torres, uma maior, mais alta, em formato de “L”, e outra menor, que fica apoiada sobre a base da primeira em cima de pilotis. Os dois volumes são unidos pelo hall.

A frente dos apartamentos é envidraçada, e a varanda liga-se ao apartamento de ponta a ponta, possibilitando a instalação de portas de vidro.

Segundo Rafael Rossi, serão instalados rolos translúcidos nas varandas, que permitirão controlar a visibilidade. “Gosto muito dos dois volumes unidos, um maior, mais robusto, e outro menor, mais delicado, como um casal”, diz.

Artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, em 26/05/2013.

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