Arquitetura arrojada em edifícios comerciais

Por Eduardo Andrade de Carvalho em 1 de dezembro de 2013

O modelo é, no mínimo, inspirador. Resultado da combinação entre o gosto pela estética e a necessidade de ambientes de trabalho menos (ou nada) convencionais, um novo conceito de prédios comerciais começa a ilustrar – e se destacar – na paisagem paulistana. Inspirados no modelo de trabalho do Vale do Silício, na Califórnia, os novos escritórios fogem do lugar-comum em todos os sentidos. Com arquitetura arrojada, em nada lembram as convencionais e apertadas saletas comerciais ou os monótonos e impessoais espigões comerciais que inundam a cidade.

Muito vidro -sem espelho, vale dizer – verde em abundância, pé direito duplo com mezanino, que formam uma espécie de loft comercial, e espaços externos. Que podem ser amplos terraços ou coberturas, onde ombrelones gigantes se misturam a jabuticabeiras – lugar cativo de mesas de reuniões e almoços de negócios. No térreo, praças de convivência abertas à comunidade, charmosos cafés e bicicletários dão o toque contemporâneo final.

São prédios baixos em bairros que abraçam esse conceito com naturalidade: Vila Madalena, principalmente, Vila Beatriz, Alto de Pinheiros, Sumaré e Pompéia. Fora dos padrões das grandes incorporadoras, que prezam a escala e a repetição das plantas, ainda são empresas pequenas que investem no modelo. A primeira delas foi a Idea!Zarvos, que fez o seu primeiro empreendimento na rua Fidalga, tradicional endereço da Vila Madalena, e não parou mais. Já entregou três prédios, dois na Vila Madalena e um no Alto de Pinheiros – totalmente locados – termina um no Sumaré em cerca de quatro meses e tem outros quatro em obras.

Otávio Zarvos, um administrador apaixonado por arquitetura que já trabalhava na área imobiliária, abriu a empresa há seis anos. Com uma carteira de investidores cativa e outros tantos interessados em entrar no negócio, Zarvos vende apenas 10% das unidades, com preço na casa dos R$ 12 mil o metro quadrado.

A maioria, no entanto, fica com a empresa e os investidores para aluguel por conta da rentabilidade que proporciona. Com fila para locação desses espaços, que já saem alugados durante a construção, o preço do metro quadrado é de R$ 80, em média. Mas pode chegar a R$ 95 dependendo do empreendimento. “São espaços que colaboram com a criatividade”, diz Zarvos, cujo escritório está num ambiente acolhedor do primeiro prédio feito pela incorporadora.

Os escritórios vão de 90 m2 a 250 m2, mas há demanda para escritórios maiores – que acabam sendo atendidas porque os espaços são modulares. Um dos prédios com construção avançada, em Pinheiros, foi alugado por uma única empresa, que não divulga o nome.

Sem o mármore no hall ou o estilo neoclássico dos edifícios da Faria Lima, esses prédios abusam da madeira e de estruturas metálicas. “Há um conservadorismo metodológico das grandes incorporadoras que avançam pouco do ponto de vista tecnológico e de inovação”, diz Lourenço Gimenes, sócio do escritório de arquitetura FGMF, que tem feito projetos nessa linha. “Sempre buscamos algo mais criativo, que se alinhasse à pesquisa e desenvolvimento, mas nunca nos alinhamos com o mercado imobiliário tradicional”, conta. “Agora, a resistência inicial está sendo vencida e encontramos nosso espaço”, acrescenta o dono das iniciais “MF” do escritório, Rodrigo Marcondes Ferraz.

Além de fora do padrão, os projetos são quase artesanais. Não se repetem, o que encarece o negócio. Mas não inviabiliza, garante Zarvos. “É preciso estudar muito bem o orçamento e ter um controle de custos minucioso”, diz o empresário, que contrata diferentes nomes da arquitetura para assinar os projetos.

A Koa Incorporadora, que nasceu de um grupo de arquitetos há um ano, também pretende seguir esse modelo de negócio. “Nosso objetivo é agregar valor aos terrenos”, diz Luis Piccini. “O modelo de salinhas comerciais já se esgotou”, avalia. A empresa comprou um terreno na Vila Madalena e vai lançar um prédio de cinco andares nos moldes da Zarvos. Quem também está atento ao conceito é Eduardo Carvalho, que há três meses montou a Moby incorporadora. “Tem muito projeto mal pensado em São Paulo”, diz. “Tenho certeza que há espaço para esse nicho.”

Nicho que atraiu designers, publicitários, produtoras de cinema, arquitetos, pequenas redações e empresas de tecnologia. Muito tênis e calça jeans no lugar de terno e gravata. “As famílias mudaram e o ambiente de trabalho, também. As pessoas moram diferente e querem trabalhar de um jeito diferente”, diz Gimenes, do FGMF.

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